A inteligência artificial pode fazer crescer a economia como nunca. Mas as máquinas pagam-se com poupança, e o que rendem vai para quem as tiver. A forma como poupamos será a reforma da década.
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O “não” sai de graça a quem o diz. O “sim” pode custar-lhe a carreira. Enquanto for assim, as leis mudam e o porteiro fica.
Música 6: Metade do que amasso
Amasso mais um pão. Peço metade. Dão-me quarenta.
A conta que importa é a do euro a mais: a hora extra, o aumento, a promoção. É aí que cada um decide se vale a pena trabalhar mais. E é aí que o Estado fica com a fatia maior. Um aumento de 100 euros brutos por mês a quem ganha 2.000 custa à empresa 124 euros e deixa ao trabalhador 58. A conta do salário mínimo é da Business Roundtable Portugal. As duas contas são da Business Roundtable Portugal. A partir de uns 3.700 euros brutos por mês, de cada 100 euros que a empresa paga a mais, o trabalhador fica com 40. O resto vai em contribuições e IRS, antes ainda do IVA sobre o que comprar com o que sobra.
A proposta do livro tem nome: o direito a ficar com metade. Em cada euro a mais que alguém ganha a trabalhar, o Estado não deve ficar com mais do que deixa. E o recibo inteiro, com o custo total à cabeça, obrigatório para todos. Vinte e nove grandes empresas já o dão a 90 mil trabalhadores. Quem vê a conta discute-a. Quem não a vê, paga-a.
O filme: um videoclipe de rap dos anos 90, com lente olho de peixe, numa padaria de Lisboa às quatro da manhã. O padeiro tende mais um pão. Umas mãos de luva branca fatiam-no e levam seis fatias em dez.
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A acampada dos idiotas úteis
Os jovens têm razões de sobra para protestar. Acamparam na praça errada.
A acampada chegou a Lisboa vinda de Espanha. Nasceu em Madrid, na Puerta del Sol, a 26 de setembro, depois do despejo de uma senhora de 87 anos, e espalhou-se por umas vinte cidades de Espanha. Barcelona tem hoje mais de seiscentas tendas na Praça da Catalunha. O Porto montou as suas na Praça D. João I a 10 de outubro. Lisboa seguiu-lhe o exemplo no Rossio a 17, logo a seguir à marcha da CGTP, com o lema "Não dá mais? Então monta a tua tenda!". Uma das porta-vozes explicou que o protesto ecoa o que se passa lá fora, "principalmente em Espanha". As assembleias fazem videochamadas com Madrid e já se associaram à greve geral espanhola de 11 de novembro.
Os números são modestos. No Porto, a 19 de outubro, 35 pessoas votaram continuar a dormir na praça. No Rossio havia cerca de cem tendas quando a polícia as levantou, na madrugada de 20, com 55 detidos. A intervenção policial deu ao movimento o que as tendas não davam: nessa noite, milhares encheram o Rossio e Ana Moura cantou a "Pedra Filosofal". Dizem que ninguém os organizou. Têm porta-vozes, equipa de comunicação, equipa de resposta, cantinas solidárias e, por trás, a plataforma Não Dá Mais, que junta cerca de quarenta coletivos e convoca manifestações por todo o país. A espontaneidade dá muito trabalho.
Têm todo o direito de estar ali. A Constituição garante-lhes a reunião e a manifestação, e a Inspeção-Geral da Administração Interna faz bem em investigar a carga do Porto. Não discuto a tenda. Discuto o caderno de reivindicações.
A raiva tem fundamento. Os preços das casas mais do que duplicaram desde 2017, diz o Banco de Portugal. No primeiro trimestre deste ano subiram 17,8% em termos homólogos, a maior subida da União Europeia nas contas do Eurostat. Entre 2021 e 2025, a população residente cresceu 825 mil pessoas. Em 2025 concluíram-se cerca de 27 mil casas novas. Numa década, estima o banco central, ficaram por construir cerca de 300 mil fogos. Os jovens não inventaram o problema. Enganaram-se no culpado.
O cartaz do Rossio pede seis coisas: revogar a nova lei do arrendamento, acabar com despejos e demolições sem alternativa, travar a compra de casas por fundos, mais habitação pública, recuperar os devolutos e tetos às rendas "verdadeiramente acessíveis". Pelo caminho juntaram-se o controlo dos preços dos bens essenciais e dos combustíveis, um imposto sobre os lucros dos bancos e o congelamento das propinas. Nenhuma destas medidas constrói uma casa. Várias destroem as que existem.
Comecemos pelos tetos. Portugal fez essa experiência durante mais de meio século. As rendas de Lisboa e do Porto ficaram presas em 1948, o 25 de Abril estendeu o congelamento ao país inteiro em 1974, e muitos contratos anteriores a 1990 continuam congelados até hoje. O resultado vê-se num passeio a pé na Baixa: prédios que o senhorio deixou cair porque a renda não pagava o telhado. Muitos dos devolutos que a acampada quer recuperar nasceram dos tetos que a acampada pede.
A Catalunha repetiu a experiência em março de 2024, com tetos nas zonas que a lei chama "tensionadas". Dois anos depois, assinavam-se menos 20% de contratos de arrendamento e as casas alugadas eram mais pequenas. Barcelona tem teto às rendas e seiscentas tendas na praça. Em São Francisco, Rebecca Diamond, Tim McQuade e Franklin Qian mediram o efeito de alargar o controlo das rendas: os senhorios abrangidos reduziram em 15% a oferta para arrendar, e as rendas da cidade subiram 5,1%. O teto protege quem já tem casa. Fecha a porta a quem chega, e quem chega é quase sempre jovem.
A lei que querem revogar vai no sentido contrário. Acaba com o travão de 2% nas rendas dos contratos novos, encurta de três para dois meses o prazo do despejo por falta de pagamento, deixa de limitar a caução a duas rendas, permite três meses de renda adiantada e começa a tirar do congelamento os contratos anteriores a 1990, conforme a idade e o rendimento do inquilino. Os detalhes discutem-se na especialidade. O sentido está certo.
Cada proteção que a acampada defende tem um beneficiário e uma vítima, e raramente são a mesma pessoa. Quem ganha com um despejo difícil é quem já tem contrato. Quem perde é quem procura casa. Um senhorio que sabe que pode levar meses ou anos a recuperar a casa de um inquilino que não paga arrenda menos e mais caro, e escolhe com mais cuidado. Pablo Casas-Arce e Albert Saiz compararam 102 cidades de 47 países: onde fazer cumprir um contrato de arrendamento nos tribunais custa mais, o mercado de arrendamento é mais pequeno. O limite à caução e às rendas adiantadas fecha a mesma porta por outro lado. A caução é a garantia de quem não tem outra. O jovem de 25 anos, com contrato a prazo e sem pais que possam ser fiadores, podia oferecer seis meses de caução para ganhar a casa a um candidato com fiador e emprego estável. A lei atual proíbe-o. Sem poder cobrar o risco, o senhorio escolhe pelo currículo, e o currículo do jovem é o mais curto da fila. Estas regras protegem os inquilinos que já o são contra os que querem sê-lo. A senhora de Madrid cujo despejo pôs Espanha a acampar merece proteção. Quem a deve pagar é o Estado, com os impostos de todos. Atirar a conta ao senhorio é despejar a próxima.
Até dentro da acampada há quem o perceba. Uma das pessoas que montou a tenda no Rossio contou ao Lisboa Para Pessoas que discorda de muitas destas soluções e não quer o mercado de arrendamento congelado.
Travar a compra por fundos é afugentar o dinheiro que constrói. Em boa parte da Europa, os prédios feitos de raiz para arrendar são pagos por fundos de pensões e seguradoras. Proibi-los não cria uma casa; afasta quem a podia construir. O especulador de que a acampada fala existe, mas é outro. É quem guarda um terreno vazio ou um prédio em ruínas à espera de que a escassez lhe faça o trabalho.
Há duas reivindicações com razão. A habitação pública é cerca de 2% do parque, das percentagens mais baixas da OCDE, segundo o Banco de Portugal. E os devolutos são uma vergonha. Mas um dos maiores proprietários do país, com muitos imóveis por usar, é precisamente quem a acampada quer pôr a construir: o Estado, cujo inventário o Tribunal de Contas considerou em 2021 incompleto e desatualizado. Quem não sabe o que tem dificilmente constrói depressa o que não tem.
O resto do caderno é folclore com custos. Tabelar o preço do pão e do gasóleo é a receita mais velha e mais falhada da economia, de Diocleciano a Caracas, e dá sempre filas e prateleiras vazias. Um imposto extra sobre os lucros dos bancos acaba pago, em parte, em crédito mais caro, também no da primeira casa. E as propinas. O Governo propõe atualizar pela inflação uma propina máxima de 697 euros por ano, congelada desde 2020. A acampada quer que o pedreiro que não foi à universidade continue a pagar, com os seus impostos, o curso de quem vai ganhar, em média, mais do que ele.
Os jovens têm razões de sobra para protestar, e tenho-o escrito muitas vezes. Há em Portugal tantos menores de 25 anos como maiores de 65, e o Estado gasta várias vezes mais com os segundos; os velhos, que votam mais, expropriam os novos. Cada residente, bebés incluídos, deve 25 mil euros de dívida pública e vai pagar 720 euros de juros em 2027. O PISA de 2025 deu a Portugal a pior nota de sempre em Leitura. Cada aumento acima do salário mínimo é tributado como se fosse um luxo. E 30% dos nascidos em Portugal com 15 a 39 anos vivem lá fora, cerca de 850 mil. Nenhuma destas razões está no cartaz do Rossio.
Daí o título. A expressão "idiotas úteis" atribui-se a Lenine sem prova de que a tenha escrito, mas descreve bem o que se passa no Rossio. Os jovens montam as tendas; outros recolhem os dividendos. A CGTP marchou a 17 pela habitação e pelos salários e acabou no Rossio, onde as tendas apareceram nessa tarde. Francisco Louçã e José Manuel Pureza, coordenador do Bloco, foram à praça. Rui Tavares também, e o Livre pediu um debate de urgência no Parlamento. O PS exige ao primeiro-ministro que deixe cair a lei das rendas, a que José Luís Carneiro chamou "desumana e injusta". Do outro lado, André Ventura usa-os ao contrário: partilhou o vídeo de uma marcha de apoio a Lula, no Brasil, para os pintar como gangues estrangeiros. Cada um tira da praça o que lhe serve. Nenhum lhes dá uma casa.
O PS é o caso mais desembaraçado. Governou de novembro de 2015 a abril de 2024, primeiro com a geringonça, depois sozinho. A construção tinha morrido antes, com a crise e a troika: em 2015 concluíram-se 7.148 casas novas. Os governos de António Costa tiveram oito anos para a ressuscitar. Nos quatro anos da geringonça, de 2016 a 2019, concluíram-se menos de dez mil casas por ano. Em oito anos completos de governo socialista foram 120 mil, menos do que só em 2002. Em 2018, a secretária de Estado da Habitação anunciou 170 mil casas com apoio público, para subir de 2% para 5% do parque em oito a dez anos. O 1.º Direito, lançado nesse ano, entregou quase 17 mil casas até janeiro de 2026, quase todas compradas ou reabilitadas; construídas de raiz, 1.568. O Banco de Portugal ainda conta 2% de habitação social. Pelo caminho, os mesmos governos limitaram a caução, travaram as rendas novas e inventaram o arrendamento forçado de casas devolutas. Oito anos deram isto. Agora o PS tem pressa.
Quem ganha, no fim, com o caderno da acampada? O dono de casa antiga, que vê o património valorizar com cada prédio que não se constrói. O inquilino de 1985, protegido por uma renda congelada que o senhorio paga por ele. O autarca que não licencia e culpa os fundos. Os governos que preferem um teto, que não custa nada ao Orçamento, a uma reforma do licenciamento, que custa votos. Os jovens do Rossio acampam pelos instalados, contra os jovens que vêm depois deles.
Enganaram-se na praça. A menos de um quilómetro do Rossio fica a Praça do Município, onde se decide quantas casas Lisboa deixa construir. Um pouco mais longe fica São Bento, onde se votam as pensões, os impostos e a dívida que lhes vão cair em cima. Montem lá as tendas. E levem uma reivindicação só, que cabe num cartaz: deixem construir.
Música 5: Avô, isto é a sério ou a brincar?
Dois factos. Os alunos de quinze anos que fizeram o PISA em 2025 tiveram o pior resultado de sempre em Leitura. Em 2040 terão trinta anos e herdarão o país que este Orçamento e os seguintes construírem. Cada residente em Portugal, bebés incluídos, deve 25 mil euros de dívida pública. Em 2027 pagará 720 euros de juros, mais 23% do que este ano.
O livro é dedicado aos meus filhos, a quem digo há trinta anos que Portugal tem dez anos para mudar, e aos meus netos, Mateo, Sofia e Emília: desta vez é a sério. Esta canção é a voz deles. Não tem ironia, ou tem a única que importa: a de uma criança a perguntar se os adultos estão a brincar.
O filme: os desenhos de caderno de uma neta, a lápis de cera, que ganham vida, e o avô que a levanta até à janela alta para que seja ela a abri-la.
A Última Janela. À venda a 10 de novembro.
If machines do the work, income goes to who owns them. Fernández-Villaverde (@JesusFerna7026) shows saving limits AI growth as much as technology. The sharper lesson is ownership, and Europe, with its deposits and pay-as-you-go pensions, is doing it wrong.
Música 3: De pé, ó condenados do atraso. É a conta final: primeiro produzir, só depois dividir.
Dois factos. Portugal cresceu cerca de 1% ao ano durante um quarto de século e passou de 85% para 77% da média europeia. Nesses mesmos anos, a despesa com pensões públicas passou de 7,8% para 13% do PIB. Repartimos uma fatia cada vez maior de um bolo que mal cresce.
A proposta do livro é a regra que dá nome ao plano: primeiro produzir, depois dividir. Não há justiça social a dividir um bolo que não cresce; há a ilusão de a ter durante uns anos, paga pelos netos. Um país que cresce a 5% pode pagar pensões, escolas e hospitais melhores. Um país que cresce a 1% paga-os à custa de quem trabalha e do investimento que não faz, e vê os filhos partir.
O filme: propaganda soviética dos anos 30, a preto e branco com uma única cor, o vermelho. Uma padaria do tamanho de uma catedral, um bolo de andares, e a Repartição a cortar em fatias um prato vazio.
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A Uber não acabou com os táxis. Acabou com a ilusão de que o preço era o custo. A IA vai fazer o mesmo a tudo o que vive de saber regras: o saber fica quase de graça e o carimbo fica à vista. Oito espécies de renda e o que a máquina faz a cada uma.
Recebi o primeiro exemplar do livro, que já está em pré-venda 🤓
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fnac.pt/A-Ultima-Janela-Pedr…
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Música 3: Ó Munique, ó Munique
O vira é o mesmo. O salário é que mudou.
Dois factos. Três em cada dez portugueses nascidos em Portugal com idades entre os 15 e os 39 anos vivem fora do país. E cada hora de trabalho em Portugal vale hoje 56% da média europeia, menos do que valia em 2000: trabalhamos mais horas do que a maioria da Europa e produzimos menos por cada uma, porque temos piores ferramentas.
A proposta do livro: a linha das chegadas. Não se traz ninguém de volta com saudade; traz-se com salários, e os salários vêm da produtividade, e a produtividade vem do capital por trabalhador, que caiu uma década inteira. Investir no que faz cada hora render mais é a única política de regresso que funciona.
O filme: um Super 8 de família. A roda do rancho encolhe na aldeia, de oito pares para um, e cresce na neve de Munique até estarem todos.
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“Basta” é a versão chique de “Chega”. Raposo quer acabar com a borla fiscal aos estrangeiros ricos. Eu quero mais: o talento e o capital que nos faltam. As casas subiram porque baixámos de 50 mil casas novas por ano para 10 mil, não por causa de 130 mil.
Música 2: O Atraso é uma Escolha.
Não foi o destino, não. Fui eu que a fiz.
Dois factos. Nos últimos vinte e cinco anos, o PIB per capita português caiu de 85% para 77% da média da União Europeia. E os resultados do PISA de 2025 puseram os alunos portugueses ao nível de 2006: andámos vinte anos para trás em leitura e matemática. Nada disto é sina. Cada número tem uma decisão por trás, e uma assinatura.
O livro chamava-se, na primeira versão, O Atraso é uma Escolha. Mudou de título, não de tese: três relógios andam contra nós, o demográfico, o orçamental e o externo, e a janela para os parar fecha-se dentro de dez anos. O fado promete resignação; o livro recusa-a.
O filme: uma noite de Lisboa a preto e branco. A fadista canta de olhos fechados, a câmara vai ver uma a uma as coisas que a letra culpa ao destino, e no fim ela abre os olhos e diz para a câmara quem fez a escolha.
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Seligman, 84 anos, seis horas por dia com o Claude: o progresso acontece onde as pessoas acreditam que vale a pena agir. Portugal responde: não nos falta agência, exportamo-la. O que fica cá são as regras que a castigam. Recensão de Agency.
O Governo fez uma coisa rara: um estudo sobre a Administração Pública na era da IA. Aplauso! Fui um dos entrevistados e discordo: a matriz não tem eixo para o cidadão, e a soberania está nos dados e nos contratos, não em modelos próprios.
“Os trabalhadores não precisam para nada dos capitalistas.” A frase tem cento e cinquenta anos e foi testada em grande escala, por isso não é preciso discutir teoria: basta olhar.
Testou-se na União Soviética, e deu a fome de 1932-33: entre três e meio e cinco milhões de mortos só na Ucrânia. Testou-se na China de Mao, e deu o Grande Salto em Frente, trinta a quarenta e cinco milhões de mortos à fome em três anos, a maior fome da história humana. Testou-se no Camboja, e deu dois milhões de mortos em quatro anos, um quarto da população. Testou-se na Alemanha de Leste, onde os trabalhadores precisavam tão pouco dos capitalistas que quase três milhões fugiram para o lado deles até o Partido construir um muro para os impedir, com ordem de disparar. Testou-se na Coreia, onde o Norte e o Sul partiram do mesmo sítio em 1953 e hoje um trabalhador do Sul ganha mais de vinte vezes o do Norte. E testou-se ao contrário na China de Deng: em 1978 deixou-se voltar a haver capitalistas, e nos quarenta anos seguintes oitocentos milhões de pessoas saíram da pobreza, segundo o Banco Mundial. Nunca, em lado nenhum, tantos trabalhadores precisaram tanto de tão poucos capitalistas.
A razão é simples e Mises escreveu-a em 1920: alguém tem de decidir onde pôr o capital, e quem o faz sem preços nem risco próprio decide mal. Em Portugal qualquer trabalhador pode hoje dispensar capitalistas: chama-se cooperativa, é legal, é apoiada, e são uma fração mínima da economia, porque o capital, o risco e a organização custam.
O extraordinário não é o João acreditar nisto. É que em 2026 um dirigente de um partido com assento parlamentar o escreva como se a experiência não tivesse acontecido, no mesmo partido que ainda se declara marxista-leninista e nunca encontrou uma palavra de condenação para nenhum dos regimes que aplicaram a frase.
E há uma pergunta que o João pode responder sem teoria. Se os trabalhadores não precisam para nada dos capitalistas, o PCP tem tudo para o demonstrar: é dos partidos com mais património do país, centenas de imóveis, a Quinta da Atalaia com trinta hectares à beira do Tejo, uma subvenção pública todos os anos e cem anos de quadros disciplinados. Podia fundar empresas sem capitalistas, geridas pelos trabalhadores, e mostrar-nos salários acima do mercado, lucros partilhados e nenhum patrão. Não precisa de tomar o poder; precisa de um registo comercial. Em cem anos fundou uma festa de três dias por ano e um jornal. A única empresa que o PCP alguma vez geriu foi o PCP, e essa vive de quotas e do Orçamento do Estado.
A dívida pública discute-se como um número e como uma culpa. Os dois modos escondem a aritmética, que cabe numa linha: o rácio da dívida sobe ou desce conforme três entradas, o juro que o Estado paga, o crescimento nominal da economia e o saldo primário. Para um país do euro, só a terceira está no Orçamento. As outras duas decidem-se em Frankfurt e no mercado.
No @ECO_PT, fiz a conta a cinco países, Portugal, França, Itália, Reino Unido e Estados Unidos, duas vezes: com o juro que cada um paga hoje sobre a dívida que tem, e com o juro que o mercado lhe pede a dez anos, que é para onde caminha à medida que a dívida se refinancia. A primeira conta é a fotografia; a segunda é o filme.
Três coisas que o filme mostra. A França não tem hoje um problema de juros; tem um défice primário de 2,8% do PIB que o mercado está a transformar, a 310 mil milhões de emissões por ano, num problema de juros, e a eleição de 2027 vai decidir-se sobre a idade da reforma. Os Estados Unidos e o Reino Unido mantêm o rácio parado por uma razão que não anunciam: a inflação acima do objetivo é um incumprimento sem data, sem tribunal e sem culpado; o problema americano não chega com uma crise, chega no dia em que a Reserva Federal acertar nas suas previsões. E Portugal é o único dos cinco cuja dívida desce nas duas contas, com juros de mercado e inflação no objetivo, e desce porque tem um excedente primário, não porque tenha sorte com as taxas.
A tentação é olhar para esse excedente como dinheiro que sobra. Não sobra. É a única entrada que controlamos, e a que compensa as outras duas no ano em que deixarem de ajudar. A aritmética não tem opinião sobre isto. Apenas soma.
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